Brasília e o cenário cultural do grafite

Daniel Toys e Camilla Siren falam sobre grafite, pichação e machismo

Quando se pensa em Brasília, a primeira coisa que vem à mente são os monumentos modernos, a arquitetura de Niemeyer e o branco por toda a cidade, certo?

Errado.

Já faz tempo que a identidade visual brasiliense não se baseia apenas nos brancos da capital. O grafite também é, agora, um dos cartões postais da cidade. Hoje os muros coloridos são parte integrante de Brasília. E, inclusive, viraram roteiro turístico.

Nomes como Toys, Siren, Omik e Pomb são destaques e figuras de respeito no cenário artístico da cidade. Reconhecidos como artistas plásticos, imprimem vida e cor pelas ruas do quadradinho. Os sopros de spray, antes vistos com preconceito, atualmente, são admirados pela maior parte dos moradores.

Daniel Toys, um dos grafiteiros mais importantes da cidade, conta como percebe a aceitação do grafite por parte da sociedade. “Há 10 anos era outra Brasília, totalmente diferente em relação à mentalidade, à aceitação. Agora é bem mais tranquilo. Hoje eu sofro mais preconceito quando eu não tô pintando, do que quando eu tô pintando. Se eu tô colocando cor na cidade, a maioria das pessoas que passam ali gostam”, afirma.

Reconhecido por fazer parte da consolidação do grafite em Brasília, Toys começou a pintar com apenas 13 anos e, desde então, nunca mais parou. “O começo do meu grafite era bem ilegal. Já respondi processo, já fui preso, e tudo isso foi necessário pra chegar aqui hoje”, ele conta.

Seus personagens dialogam com Brasília. Toys usa inspirações da arquitetura da cidade como referência para criar. “Meu personagem tem uma pegada mais geométrica e desconstruída, algo que eu tiro muito de Brasília. Eu a enxergo como uma cidade muito clean, muito geométrica. As pessoas são o caos. E caos, nesse sentido, é algo bom, é a matéria prima.”


PICHAÇÃO X GRAFITE

Uma questão muito polêmica que envolve o grafite é a relação entre ele e as pichações. Para Toys, as duas coisas têm sua importância. Segundo o grafiteiro, os dois se diferenciam na estética e no propósito. O propósito da pichação é agredir, chamar a atenção para alguma coisa. O do grafite é ressignificar os lugares em que está. Mas, para o artista, essa discussão é muito mais profunda. “Eu sempre faço essa pergunta pras pessoas: por que existe tanta pichação no Brasil? Foi alguém que fez aquelas pichações. Um moleque que subiu lá no topo do prédio e arriscou a vida dele. Não é qualquer um que faz isso. Então o que leva ele a arriscar a própria vida pra deixar o nome marcado ali?”, questiona.

Para Toys, o tema é uma questão social muito mais importante do que aparenta ser. “O fato das pessoas não se importarem com a vida desse moleque agride muito mais do que o nome dele pintado ali”. Daniel acredita que a pichação deve ser tratada com maior preocupação social, como algo muito maior do que, simplesmente, tinta na parede.


A RUA TAMBÉM É COISA DE MULHER 

Camilla Siren tem só 22 anos e pinta desde nova. Se arrisca muitas vezes e vai pra rua sozinha para grafitar. Em um mundo onde a rua não é “coisa de mulher”, o machismo é muito presente na vida da artista, que passa por cima do medo e dos assédios para imprimir sua arte na cidade e colorir Brasília. “A rua é um lugar hostil para as mulheres. Já passei por situações complicadas com homens, que achavam ter alguma autoridade sobre mim. Não eram policiais, nem nada, só queriam me reprimir”, afirma.

Além de buzinadas, assobios e assédios diários que qualquer mulher enfrenta ao ir pra rua, Siren também lida com o machismo de alguns colegas grafiteiros. “Eu, quando comecei, era muito nova, não tinha muita cabeça. Só percebi algumas coisas depois de um tempo. Você começa a pintar, e homens te chamam pra pintar junto. Só depois eu percebia as segundas intenções. Foi meio pesado, porque eu sempre fui muito quieta e introvertida e, quando o grafite surgiu pra mim, eu me forcei a ir pra rua.”

A artista mostra personagens femininas fortes nos seus murais, com olhares penetrantes e punhos cerrados. Até mesmo sangue faz parte de seus desenhos. “Como o grafite fica na parede, várias mulheres passam por ali e vêem. Mulheres que talvez estejam em uma situação muito pior do que eu. Apesar das minhas personagens, às vezes, estarem sangrando, gosto de mostrar que elas estão enfrentando. Quero repassar esta ideia de que, apesar de tudo, a gente pode rebater. As mulheres que eu desenho são inspirações pra mim. Quero transmitir essa ideia, mas também quero absorver pra mim”, compartilha.

Até mesmo para os homens, a vida no grafite é perigosa. “Eu fico pensando nessas meninas que pintam, na coragem que elas têm de ir pra rua num mundo machista. A rua tem gente perigosa, gente louca, e eu fico imaginando: se eu, que sou homem, desse tamanho, já passei por poucas e boas, imagina elas. Então, realmente, mulher que pinta na rua tem muito o meu respeito”, afirma Toys.


BRASÍLIA E GRAFITE

Apesar de ainda existirem dificuldades, o grafite é cada dia mais reconhecido e valorizado em Brasília. Os traços coloridos e as tintas nos muros revitalizam espaços, aproximam pessoas, ressignificam lugares. Os personagens nos muros são habitantes da cidade e fazem parte da identidade cultural e visual brasiliense, assim como a arquitetura de Niemeyer, o paisagismo de Burle Marx, os azulejos de Athos Bulcão e os cobogós.

A arte urbana é o complemento perfeito para a sobriedade da arquitetura brasiliense, para o rigor da carga de pólo político nacional, para a seriedade e rigidez da Capital Federal. O crescente movimento do grafite na cidade é um reflexo de que Brasília pode ir além disso e ser criatividade, cor, pluralidade, poesia e muita arte.

Texto por Beatriz Roscoe Arte por Carina Benedetti 

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